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Não, você não leu errado. O A Perfect Circle realmente lançou uma música nova. E o nome dela é Starless, um título que já carrega uma ironia típica da banda: como pode um círculo perfeito existir num universo sem estrelas? Mas talvez essa seja a questão central.
Vamos deixar de lado, por um instante, o formato de lista, os títulos chamativos e as frases feitas sobre “supergrupo”. O que o A Perfect Circle sempre fez, desde aquele Mer de Noms de 2000, foi o contrário do que a indústria espera. Eles nunca foram fáceis de catalogar. Tool já era um organismo denso demais; imagine quando Maynard James Keenan decidiu dar voz às composições de um técnico de guitarra chamado Billy Howerdel.
A história oficial é bonita demais para ser verdade, mas é: Howerdel, o sujeito que afinava guitarras para o Nine Inch Nails e o Smashing Pumpkins, mostrou um dia suas demos para o amigo Maynard que, na época, já carregava o peso de ser a voz mais enigmática do rock progressivo, ouviu e disse: “Eu consigo me ver cantando isso”. Não era Tool. Não era nada que se parecesse com Tool. Era mais contido, mais melancólico, com guitarras que cortavam como lâmina cirúrgica.
Nesse momento nasce A Perfect Circle, nome perfeito para uma banda que sempre tratou da imperfeição das coisas. O círculo ideal não existe na matéria; é uma abstração matemática. A música deles, também. Enquanto o Tool demorava anos entre um disco e outro, o APC lançou três álbuns em quatro anos. Mer de Noms (2000) foi uma pancada no rock alternativo. “Judith” ainda ecoa como um grito contra a fé cega. Thirteenth Step (2003) aprofundou a ferida: um álbum-conceito sobre dependência química que não moraliza, apenas descreve a queda. eMOTIVe (2004) foi um desvio corajoso: um disco de covers anti-guerra lançado no auge do segundo mandato de Bush. Depois disso, silêncio.
Quatorze anos. Tempo suficiente para uma geração inteira descobrir a banda no Spotify e outra esquecer que ela existia. Até que, em 2018, Eat the Elephant chegou como um elefante branco: orquestral, politizado, cansado e lúcido ao mesmo tempo. Não foi um retorno triunfante; foi um lembrete básico de “ainda estamos aqui, e o mundo piorou”.
E agora, maio de 2026. Após oito anos. Outro hiato. Outro retorno. “Starless” é lançada sem alarde, sem campanha de marketing em redes sociais, sem aquela histeria de contagem regressiva que os grandes selos adoram. Apenas apareceu, quase tímida. E, ao contrário do que muitos esperavam, “Starless” é densa, inquieta e… estranhamente contida.
Billy Howerdel produziu a faixa em seu próprio estúdio, o Lankershim Ranch. Matty Green (U2, Florence + The Machine) fez a mixagem. E Josh Freese está de volta à bateria, o que por si só já é uma declaração de intenções: a precisão cirúrgica, a pancada seca que nunca atropela a melodia.
Mas… o que há na musica? O refrão é pulsante. É hipnótico, repetitivo, quase um mantra. Maynard canta com uma urgência que não precisa gritar. Ele está cansado, sim, mas não derrotado. A letra fala de bússolas morais obliteradas, de alienação, de uma pergunta que se repete como eco: “Where am I going? How do I find my way?”.
O videoclipe, em preto e branco e dirigido por Jon Vulpine, é um pesadelo elegante: rostos em close, imagens granuladas, corpos que se movem sem direção. Não há plot twist. Não há explicação. Só o desconforto.
A turnê europeia inicia em junho de 2026. O Mad Cool Festival, em Madrid, terá a banda no dia 10 de julho. Datas no Japão, Havaí, Austrália. Rumores de um novo álbum circulam, mas, com esses caras, rumores são apenas rumores. Pode ser que Starless seja um single solto, um gesto isolado, um lembrete de que a banda ainda respira. Ou pode ser a primeira peça de um quebra-cabeça maior.
O fato é que, em um ano onde o rock mainstream parece ter se acomodado em nostalgia segura, o A Perfect Circle continua sendo aquela sombra incômoda no canto da sala. Não são heróis. Não são mártires. São apenas quatro músicos que sabem que um círculo perfeito não existe, mas que vale a pena tentar desenhá-lo, mesmo assim.









