Poucos discos da história do metal parecem ter sido gravados para soar como um ataque frontal. Em 1986, enquanto o thrash metal começava a crescer de forma agressiva nos Estados Unidos, o Slayer decidiu ignorar qualquer limite que ainda existisse dentro do gênero. O resultado foi Reign in Blood, um álbum curto, brutal e sufocante, que em menos de meia hora redefiniu o peso dentro do metal extremo e mudou para sempre a maneira como velocidade, violência sonora e atmosfera seriam entendidas dali em diante.
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Lançado pela Def Jam em parceria com a Geffen, e produzido por Rick Rubin, o terceiro disco do Slayer chegou em um período em que bandas como Metallica, Megadeth e Anthrax já consolidavam o thrash metal como uma força real dentro do underground. Ainda assim, havia uma sensação de que o Slayer queria ultrapassar todo mundo em agressividade. Não bastava tocar rápido. A banda queria soar ameaçadora. Kerry King e Jeff Hanneman escreveram as músicas praticamente como se estivessem em uma disputa interna para descobrir até onde era possível empurrar a intensidade sem destruir completamente a estrutura das canções. O próprio empresário Brian Slagel descreveu a ambição do grupo como a tentativa de criar “o disco mais rápido e pesado já feito”.
Antes mesmo de entrarem em estúdio, boa parte do material já estava pronta em demos instrumentais. Isso ajudou a transformar as gravações em algo quase cirúrgico. Em junho de 1986, a banda entrou no Hit City West Studio, em Los Angeles, com Rick Rubin e o engenheiro Andy Wallace. Rubin ainda era visto muito mais como um nome ligado ao hip-hop do que ao metal, mas sua visão acabou sendo essencial para moldar a identidade do álbum. Enquanto muitos discos da época apostavam em reverbs exagerados e produções grandiosas, ele decidiu fazer exatamente o contrário: secou completamente o som do Slayer. Tudo em Reign in Blood parece próximo, cortante e desconfortável. As guitarras não soam gigantescas por causa de efeitos; elas parecem violentas porque estão nuas.
Dave Lombardo gravou as baterias em poucos dias, algo quase absurdo considerando a velocidade das músicas. Mas o Slayer chegou tão ensaiado que o álbum acabou carregando uma sensação quase ao vivo. Não existe gordura sobrando ali. Rubin apenas ajustou timbres, limpou excessos e deixou a banda soar como realmente era. O resultado é um disco onde tudo pode ser ouvido com clareza mesmo quando parece estar desmoronando em velocidade máxima. Foi a primeira vez que o Slayer percebeu que agressividade não precisava significar sujeira sonora.
E então o disco começa. “Angel of Death” não abre apenas o álbum; ela praticamente arranca a porta das dobradiças. O riff inicial virou um dos sons mais reconhecíveis do metal extremo, enquanto Tom Araya despeja versos inspirados nos experimentos humanos conduzidos por Josef Mengele em Auschwitz. A música causou polêmica imediata. Houve acusações de simpatia ao nazismo, pressão de executivos e resistência da Columbia em distribuir o álbum. O Slayer jamais recuou. A banda insistiu que a letra não glorificava Mengele, apenas descrevia o horror histórico de forma crua e sem filtros. Isso acabou ampliando ainda mais o impacto do disco antes mesmo do lançamento.
Sem permitir qualquer respiro, “Piece by Piece” mergulha em imagens grotescas de mutilação e canibalismo, enquanto “Necrophobic” passa como um ataque relâmpago, terminando quase antes do cérebro processar o que acabou de ouvir. A impressão é de que o Slayer queria transformar cada música em uma explosão curta, evitando qualquer repetição desnecessária. Não por acaso, o álbum inteiro dura menos de trinta minutos. Jeff Hanneman chegou a comentar anos depois que a banda simplesmente se entediava quando repetia riffs demais.
“Altar of Sacrifice” aprofunda o imaginário satânico que acompanhava a banda desde os primeiros discos, mas de forma muito mais agressiva e cinematográfica. Décadas depois, a música acabaria envolvida em discussões após um caso criminal nos Estados Unidos em que assassinos alegaram inspiração em rituais satânicos, embora o Slayer nunca tivesse qualquer relação real com aquilo. Já “Jesus Saves” talvez seja uma das letras mais provocativas do disco justamente por vir de Tom Araya, um católico praticante. A música ataca a hipocrisia religiosa e a ideia de fé automática, como se o simples ato de frequentar uma igreja garantisse salvação instantânea.
No lado B, o álbum continua sem perder intensidade. “Criminally Insane” se tornou referência para boa parte da bateria extrema que explodiria no death metal anos depois. Lombardo toca como alguém tentando acompanhar uma máquina fora de controle. Em “Reborn”, o Slayer mergulha em imagens de ocultismo e vingança sobrenatural, enquanto “Epidemic” descreve uma praga devastando a humanidade com uma frieza quase clínica. O disco inteiro parece fascinado pela morte, mas nunca de forma fantasiosa ou heroica. Tudo soa desconfortável, decadente e opressor.
Essa atmosfera alcança o auge em “Postmortem”, talvez a música mais sombria do álbum em termos de clima. Ela desacelera momentaneamente para criar tensão antes de desembocar em “Raining Blood”, o encerramento que transformou o Slayer em uma instituição dentro do metal extremo. A introdução com chuva e trovões já virou patrimônio cultural do gênero. Quando o riff principal entra, o álbum parece atingir sua forma definitiva. “Raining Blood” soa apocalíptica sem precisar recorrer a excesso de produção ou teatralidade. É apenas o Slayer no auge absoluto da própria violência sonora.
A repercussão foi imediata. Críticos enxergaram em Reign in Blood algo que ia além do thrash metal tradicional. O disco parecia mais extremo que tudo ao redor. Revistas como a Kerrang! passaram a descrevê-lo como uma espécie de perfeição brutal, enquanto listas posteriores o colocariam entre os maiores álbuns de metal de todos os tempos. A própria capa, criada pelo ilustrador Larry Carroll, virou parte da identidade do disco. A arte caótica, cheia de imagens infernais, cabeças decapitadas e figuras grotescas, era tão perturbadora que os próprios integrantes inicialmente não gostaram dela. Mudaram de ideia quando ouviram de familiares que aquilo parecia “nojento demais”. Era exatamente a reação que procuravam.
Mesmo após décadas, o impacto de Reign in Blood continua impossível de medir completamente. O álbum ajudou a moldar o death metal americano, influenciou grindcore, black metal e praticamente qualquer vertente extrema que surgiu depois. Bandas da cena da Flórida passaram anos tentando recriar aquela mistura de velocidade absurda, riffs violentos e produção seca. Lombardo virou referência obrigatória para bateristas extremos, enquanto os riffs de Hanneman e King se transformaram em uma espécie de linguagem universal dentro do metal pesado.
Mais impressionante do que a brutalidade em si é perceber como Reign in Blood continua moderno. Muitos discos extremos envelhecem presos ao choque da época. O Slayer conseguiu algo diferente. O álbum ainda transmite perigo real. Ainda soa desconfortável. Ainda parece música feita sem qualquer preocupação em ser aceita fora daquele universo. Talvez seja exatamente isso que mantém o disco vivo quase quarenta anos depois: ele nunca tentou agradar ninguém.









