Vinte e quatro anos atrás, o Korn lançava Untouchables, um álbum que carregava o peso de ser o sucessor de Issues (1999), disco que estreou em primeiro lugar na Billboard 200 com 575 mil cópias vendidas na primeira semana. Com uma expectativa elevada, a banda vinha de uma sequência de três álbuns de platina multiplatinados e consolidava o nu metal como um dos gêneros dominantes do rock na virada do milênio.
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O resultado, porém, foi ambivalente: Untouchables estreou em segundo lugar na parada americana, atrás de The Eminem Show, do rapper Eminem, com 434 mil cópias. Queda de 24% em relação ao trabalho anterior. Apesar de ter alcançado certificado de platina nos Estados Unidos em menos de um mês, o disco vendeu, no total, 1,4 milhão de cópias em território americano, número inferior aos 3,7 milhões do Follow the Leader (1998) e aos 3,2 milhões do Issues.
Untouchables entrou para a história não apenas por seu som, mas por seu custo. Segundo declarações posteriores do vocalista Jonathan Davis e do baixista Reginald “Fieldy” Arvizu, o álbum custou aproximadamente US$ 4 milhões.
A maior parte desse montante, cerca de US$ 3,1 milhões, foi gasta para manter toda a equipe de turnê da banda em regime de espera durante quase dois anos, enquanto o Korn tentava recuperar a dinâmica criativa em Scottsdale, Arizona. “Foi uma burrice. Não precisava daquilo”, declarou Fieldy em entrevista à revista Kerrang! em 2015. “Estávamos todos brigando, e ao invés de parar, a gente continuava gastando dinheiro.”
As sessões de gravação ocorreram entre abril e novembro de 2001 nos estúdios Conway e The Village, em Los Angeles, sob a produção de Michael Beinhorn (Soundgarden, Marilyn Manson) e mixagem de Andy Wallace (Nirvana, Slayer). O Korn optou por gravar em resolução de 96 kHz, o que entregou uma qualidade sonora excepcional para a época. Em entrevista ao podcast The Jasta Show em 2020, Jonathan Davis afirmou: “Até hoje as pessoas usam aquele disco para testar caixas de som. Soa incrível. Mas o processo foi um inferno.”
O ambiente durante a criação de Untouchables foi descrito pelos próprios membros como “tóxico”. A banda chegou a considerar a demissão de Fieldy devido a problemas com abuso de substâncias, de acordo com o livro Korn: Life in the Graveyard, do jornalista Joel McIver. O guitarrista Brian “Head” Welch, que deixaria o grupo três anos depois, já demonstrava descontentamento com a direção musical.
Liricamente, o álbum manteve a temática característica de Davis: abuso, isolamento, depressão e raiva dirigida a figuras de autoridade. Diferentemente dos discos anteriores, porém, Untouchables não trouxe nenhuma faixa com gaita de foles, marca registrada do vocalista em canções como Shoots and Ladders e Kill You.
As faixas de maior destaque incluem Here to Stay (que rendeu ao Korn o Grammy de Melhor Performance Metal em 2003), Thoughtless, cujo videoclipe animado em massinha foi dirigido por os irmãos Hughes, e Alone I Break, uma das canções mais melancólicas da banda. O encerramento, No One’s There, foi frequentemente citado pelo próprio Davis como uma das composições mais pessoais de sua carreira.
A recepção da crítica foi mista a positiva. O AllMusic deu 4 de 5 estrelas, elogiando a produção e a maturidade da banda, mas apontando que “a energia crua dos primeiros discos se perdeu em camadas de efeitos”. A Rolling Stone, em crítica assinada por Pat Blashill, classificou o disco com 3 de 5 estrelas e escreveu que “o Korn parece preso entre a agressividade que os consagrou e uma ambição que ainda não sabem administrar”. Já o NME foi mais duro: “Um disco caro e grandioso que, ironicamente, soa pequeno.”
Com o passar dos anos, Untouchables ganhou status de obra subestimada entre parte do fã-clube. Em 2022, Jonathan Davis afirmou ao Los Angeles Times: “Acho que é o Dark Side of the Moon do Korn. Ninguém entendeu na hora, mas é nosso disco mais bem produzido e honesto.” A comparação foi recebida com ceticismo por críticos, mas demonstra como a própria banda reevalua o trabalho duas décadas depois.
A turnê de apoio a Untouchables, batizada de “Untouchables Tour”, teve início em fevereiro de 2002, antes mesmo do lançamento do disco, e se estendeu até agosto daquele ano. A primeira etapa foi chamada de “The Tour with No Name”, e a segunda, “Pop Sux Tour”, numa provocação à música pop dominante nas paradas. O registro ao vivo do show no Hammerstein Ballroom, em Nova York (10 de junho de 2002), foi lançado em DVD duplo e certificado ouro pela RIAA.
Apesar do desempenho comercial inferior aos álbuns anteriores, Untouchables vendeu mais de 5 milhões de cópias no mundo todo, número que qualquer banda de rock pesado consideraria um sucesso. No entanto, para o Korn, que havia liderado a primeira onda do nu metal, o disco representou o início de um declínio gradual. O próximo álbum, Take a Look in the Mirror (2003), venderia ainda menos.
Untouchables foi lançado no ano em que o nu metal atingia seu pico comercial, mas também começava a mostrar sinais de saturação. Bandas como Linkin Park (Hybrid Theory, 2000), System of a Down (Toxicity, 2001) e Slipknot (Iowa, 2001) dividiam espaço nas paradas. O Korn, que havia inventado grande parte do vocabulário do gênero no início dos anos 1990, agora competia com uma nova geração.
A data de 11 de junho de 2002 também carregava um simbolismo involuntário: foi lançado um mês antes do icônico The Rising, de Bruce Springsteen (que abordava os ataques de 11 de setembro), e duas semanas após o American Idiot viria apenas dois anos depois, mas isso é assunto para outra hora.
Hoje, Untouchables permanece como um caso de estudo sobre como dinheiro, tensão e ambição mal direcionada podem produzir um trabalho tecnicamente impecável, mas comercialmente aquém do esperado. Não foi o fracasso que alguns rotulam, tampouco a obra-prima que seus criadores insistem em dizer. Foi, acima de tudo, o reflexo de uma banda que tentou se provar intocável. E descobriu que ninguém é.








