Edu Falaschi já foi “enterrado vivo” duas vezes. A primeira, pela internet, sendo massacrado pelas notas desafinadas, enquanto seu esôfago queimava silenciosamente. A segunda, pelo próprio mercado, que o deu como morto depois que ele saiu do Angra sem alarde, endividado, de luto pela mãe e com a voz tão arranhada que parecia lixa.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!
Não é drama. É fato. Pergunte a qualquer fã que viu os shows entre 2008 e 2011. A queda foi pública, brutal, e teve até apelido de arquibancada: “Falasquito”. O tipo de apelido que gruda na reputação do artista e fica difícil desassociar.
Agora, 2026. Edu Falaschi lança uma música chamada Unchained. Desamarrado. Livre. E o mais surpreendente não é a qualidade da música, que tem, sim, seus méritos. O mais surpreendente é que ele decidiu fazer algo que ninguém pediu.
Unchained não é power metal. Não tem double bass acelerado a 180 bpm. Não tem refrão “grudentinho” feito para levantar isqueiros em festival europeu. Em vez disso, tem groove de baixo que tem seu valor(Raphael Dafras), bateria que pensa antes de bater (Jean Gardinalli), guitarra melódica que não compete em velocidade (Victor Franco). E um solo de saxofone.
Sim, Saxofone…Wagner Barbosa é o responsável, e por um segundo você esquece que está ouvindo um ex-vocalista do Angra. Parece outra banda. Parece o fusion dos anos 90 dialogando com o progressivo dos 70. Parece um cara de quase 50 anos que resolveu, pela primeira vez na vida, fazer exatamente o que quer, sem consultar o que a cena acha.
E isso é, de fato, interessante… Falaschi construiu sua carreira pós-Angra como um resgate cuidadoso da própria reputação. Ele gravou clássicos ao vivo, refez versões acústicas, lançou álbuns conceituais (“Vera Cruz”, “Eldorado”) que flertavam com o mesmo universo histórico e melódico que um dia o consagrou. Foi um trabalho de formiga. De reconstrução vocal, emocional, financeira. Ele abriu a própria gravadora. Aprendeu a empreender. Controlou a doença. Voltou a cantar afinado. Não com a técnica cirúrgica de 2001, mas com uma urgência que faltava antes.
Tudo isso para, no auge dessa segunda fase, soltar um grande trabalho como esse: “Unchained”, que é o segundo single do álbum “Mi’Raj” (último de uma trilogia iniciada em 2021). A letra fala de transcendência espiritual, de atravessar “12 véus” ao lado de uma vidente, mas qualquer um que conhece a história de Falaschi sabe que a libertação ali é outra.
A produção é de Dennis Ward (Helloween, Angra), mas não espere o polimento estéril. “Unchained” soa como uma banda tocando junta numa sala, não como takes colados com edição cirúrgica. Há sujeira, há respiro, há espaço entre as notas. O baixo de Raphael Dafras, aliás, merece atenção separada: ele não apenas acompanha; ele contra-ataca. Soa como um grito, uma voz unica, destacada.
E o sax? O sax é a aposta mais alta. Numa cena heavy metal brasileira que ainda torce o nariz para sopros e instrumentos “não elétricos”, colocar um solo de sax no meio de uma faixa que poderia ser um hino é quase um gesto de rebeldia silenciosa. É como se Falaschi dissesse: “Eu já provei o que tinha que provar. Agora vou me divertir.”
O álbum Mi’Raj, previsto para junho de 2026, ainda trará Intuição — a primeira música em português do cantor em 24 anos. Isso também é inesperado. Também é arriscado, e autêntico.
Além do mais, “Unchained” pode não ser uma música fácil de digerir. Ela não se entrega na primeira ouvida. Ela exige que você preste atenção no baixo, na virada de bateria que não acontece onde você espera, no momento em que o sax entra e parece vir de outro planeta. Ela é uma música para você sentar e apreciar com calma, não para ser tocada no fundo enquanto se lava louça.
Edu Falaschi, o homem que foi “dado como morto” duas vezes, acabou de lançar a música mais viva de sua carreira solo. Não é perfeita. Não é clássica. Mas é livre. E liberdade, no metal, sempre foi o tema mais difícil de compor sem cair no clichê. Um dos melhores lançamentos do ano no cenário nacional









