Há uma tendência estranha na forma como o Brasil costuma lembrar seus músicos. Alguns viram monumentos. Outros acabam reduzidos ao momento mais triste de suas vidas. E talvez nenhum integrante da Legião Urbana represente melhor isso do que Renato Rocha.
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Hoje, 27 de maio, o baixista completaria 65 anos. Mas enquanto Renato Russo virou símbolo eterno de uma geração inteira, Renato Rocha acabou preso numa lembrança quase cruel, a do ex-integrante encontrado em situação vulnerável, distante dos palcos, das capas de revista e da imagem glamourizada como outros nomes ligados ao rock brasileiro dos anos 80. Como se a história dele pudesse ser resumida apenas ao próprio fim. Antes de qualquer decadência, Renato Rocha ajudou diretamente a construir a alma sonora da Legião Urbana justamente no período em que a banda deixou de ser apenas mais um grupo de Brasília para se tornar algo muito maior que isso.
Quando Renato se juntou ao grupo em 1984, a banda ainda estava tentando se organizar. Renato Russo já não conseguia assumir o baixo da forma necessária, e Marcelo Bonfá chamou alguém que circulava há tempos pela cena em Brasília. Renato Rocha vinha do punk, carregava influência das bandas inglesas, tinha postura debochada, visual agressivo e um jeito completamente diferente da imagem introspectiva que mais tarde definiria a Legião para o grande público.
Enquanto Renato Russo escrevia letras carregadas de angústia, política, religião e existencialismo, Renato Rocha ajudava a impedir que a banda se transformasse apenas em poesia melancólica acompanhada de guitarra limpa. O baixo dele dava peso, movimento e tensão para músicas que poderiam facilmente soar leves demais sem aquela base pulsando por baixo.
É difícil ouvir Daniel na Cova dos Leões, Acrilic On Canvas ou até partes de Tempo Perdido sem perceber que existia ali um músico que entendia exatamente quando agir. E isso talvez explique por que o trabalho dele envelheceu tão bem. Renato não tentava o protagonismo. Tentava fazer parte da alma da musica.
O curioso é que, apesar disso, o público médio quase nunca enxergou Renato Rocha como um dos pilares da Legião. Parte disso vem do próprio perfil da banda. Renato Russo naturalmente absorvia toda atenção. Era o rosto, a voz e o discurso. Mas existe também outro fator: Renato Rocha parecia desconfortável demais para caber na imagem romantizada que mais tarde se criou em torno da Legião Urbana, ele tinha um lado punk mais intenso que a própria assinatura da banda.
Enquanto a Legião começava a virar fenômeno nacional, Renato ainda carregava muito da sujeira e da agressividade da cena underground de Brasília. E talvez essa diferença tenha começado a afastar as peças internamente.
A saída dele da banda, em 1989, sempre foi cercada por versões desconfortáveis. Oficialmente, desgaste, atrasos, problemas com álcool e convivência difícil. Mas o próprio Renato carregou durante anos a sensação de ter sido descartado friamente justamente depois de ajudar a construir a fase mais importante da banda.
Os discos que transformaram a Legião Urbana em gigante ainda tem sua assinatura. As músicas continuam sendo cantadas por multidões até hoje. O país inteiro ainda consome aquela fase da banda quase como patrimônio cultural, mas Renato Rocha passou décadas parecendo um fantasma perdido dentro da própria história.
Depois da Legião, vieram projetos menores, sumiços, dificuldades financeiras, dependência química e um isolamento cada vez mais evidente. E quando reportagens mostraram sua situação nos anos 2010, muita gente reagiu com choque quase instantâneo, como se o Brasil finalmente percebesse que um dos músicos responsáveis pela trilha sonora de uma geração inteira estava vivendo longe de qualquer reconhecimento real.
Só que talvez a parte mais triste nem tenha sido a pobreza, talvez tenha sido o esquecimento. Infelizmente, existe algo profundamente injusto em um país que canta “Quase Sem Querer”, mas quase nunca lembra que Renato Rocha também ajudou a escrever aquela música, e talvez seja justamente por isso que o aniversário dele mereça mais do que homenagens superficiais ou posts nostálgicos cheios de frases prontas sobre saudade.
E mesmo depois de tantos anos, talvez ainda exista muita gente ouvindo Legião Urbana sem perceber que parte daquela melancolia, daquele peso emocional e daquela tensão silenciosa também passava pelas mãos dele.









