Existem bandas que envelhecem tentando reviver uma época. O Rancore parece fazer o contrário. A sensação durante o show no Porão do Rock 2026 era de que a banda ainda continua presa naquele mesmo desconforto emocional que transformou suas músicas em algo tão importante para uma geração inteira. E talvez seja justamente isso que torna a apresentação deles tão diferente de muita coisa que sobe em grandes festivais hoje.
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O Porão do Rock sempre carregou essa identidade de mistura entre estilos, tribos e gerações da cena alternativa brasileira, mas algumas bandas parecem conversar diretamente com a alma do evento, e Rancore foi uma delas. Porque existe algo muito específico na relação que a banda construiu com o público ao longo dos anos. Não é admiração distante. É identificação. As músicas deles nunca soaram como discurso pronto ou rebeldia fabricada. Elas sempre pareceram desabafo, e fica ainda mais intenso no ao vivo.
O mais interessante era observar a reação das pessoas durante o show. Tinha quem gritasse cada letra olhando para o chão, buscando lembranças. Tinha algum grupo formando roda no meio da multidão enquanto outros apenas levantavam os braços e cantavam com os olhos fechados. Poucas bandas conseguem gerar esses dois extremos ao mesmo tempo: caos físico e conexão emocional.
E talvez seja nesse ponto que o Rancore continua acertando depois de tantos anos. Eles não tentam soar maiores do que são. Não existe aquela postura artificial de banda querendo parecer inalcançável. O palco deles ainda parece próximo, humano e vulnerável. Isso fica evidente principalmente nos momentos em que as músicas explodem e o público assume parte do show sozinho.
Dentro de um festival gigantesco, cercado por nomes internacionais, estruturas enormes e apresentações muito técnicas, o Rancore acabou entregando uma das coisas mais difíceis de encontrar hoje: verdade. Não perfeição. Verdade.
O curioso é perceber como boa parte da nova geração da cena também estava ali. Muita gente que talvez nem tenha acompanhado a fase inicial da banda, mas que encontrou nas músicas aquele mesmo sentimento de angústia, confusão e necessidade de pertencimento que sempre acompanhou o hardcore brasileiro. Isso faz o show ganhar uma camada ainda mais forte, porque deixa de ser apenas nostalgia. Vira continuidade.
No entanto, a apresentação do Rancore no Porão do Rock 2026 não ficou marcada apenas pelo peso ou pela energia. Ficou marcada porque parecia sincera em um momento onde muita coisa dentro da música soa calculada demais. E talvez seja justamente por isso que, quando as luzes se apagaram e o show terminou, a sensação não era apenas de ter assistido uma banda. Parecia mais como sair de uma conversa intensa que ninguém ali conseguiu explicar direito.









