Se você achava que o rock já tinha explorado o terreno da criatividade, acabou achando errado. Quanto mais você cava, mais você entra no vale da estranheza e se depara com criaturas musicais que desafiam qualquer tentativa de classificação tradicional. Do deathcore extraterrestre ao metalcore de 8 bits, passando por fossas sépticas que viram palco e cogumelos psicodélicos cobertos de musgo, o submundo das estéticas “core” nunca foi tão vivo, bizarro e criativo. Entre nesse universo das bizarrices e entenda sobre algumas vertentes “core” espalhadas pelo mundo:
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!
Começando pelo Nintendocore, que talvez seja a mais conhecida dessas estéticas dentro do rock (ou não!). É um gênero que funde metalcore, hardcore e post-hardcore com chiptune, aqueles sons “quadrados” e nostálgicos dos videogames de 8 e 16 bits, especialmente da Nintendo. A origem do termo surgiu de forma acidental: em 1999, a banda californiana Horse The Band usou a palavra “Nintendocore” como uma piada para descrever sua própria mistura com melodias de Game Boy. A brincadeira pegou, e o nome acabou definindo um movimento que ganhou força no final dos anos 2000. Antes deles, porém, The Advantage já fazia covers instrumentais de músicas da Nintendo desde 1998, e a semente vinha de muito antes. Em 1978, os japoneses do Yellow Magic Orchestra já sampleavam Space Invaders. Musicalmente, o Nintendocore é um contraste violento entre guitarras distorcidas, bateria frenética e sintetizadores que imitam consoles antigos. As bandas fundamentais desse gênero são: Horse The Band (com os álbuns The Mechanical Hand e A Natural Death), Minibosses, Anamanaguchi (mais acessível, puxando para o rock alternativo) e Rolo Tomassi. No Brasil, o destaque fica por conta da 8 Bit Instrumental, de Uberlândia, que desde 2005 toca versões rock de Super Mario e Street Fighter II com um Super Nintendo projetando imagens ao fundo, e também Os Gameboys, de São Paulo, vencedores do prêmio Game Music Brasil em 2011.
Se o Nintendocore é barulhento e colorido, o Weirdcore trás um outro contraste, sendo silencioso e perturbador. Nascido em fóruns e no Tumblr no início dos anos 2010, o Weirdcore é uma estética visual e sonora que explora o estranhamento do familiar, aquela sensação de déjà-vu errado, como entrar em um corredor de hospital vazio ou em um shopping abandonado. Musicalmente, ele aparece no rock principalmente através de clipes caseiros granulados, samples de anúncios antigos e atmosferas que lembram os primeiros vídeos do YouTube. Bandas como Black Midi, The Garden e Xiu Xiu incorporam esse estranhamento em suas performances e videoclipes, usando ângulos desconfortáveis, imagens de baixa resolução e uma sensação constante de que algo está fora do lugar. O Weirdcore não é um gênero musical fechado, mas uma abordagem: ele transforma o rock em um sonho febril do qual você não consegue acordar. Sua irmã mais nova, Dreamcore, vai na mesma direção, mas com uma pegada mais etérea e onírica. Menos pesadelo, mais solidão pacífica em um campo de futebol vazio ao entardecer.
Agora, se você prefere o caos colorido ao vazio existencial, conheça o Clowncore. Sim, é sobre palhaços, mas não aqueles fofinhos de circo. O Clowncore pega a figura do palhaço e a transforma em algo tecnicamente absurdo e visualmente perturbador. A principal referência é a dupla Clown Core (com espaço mesmo), conhecida por tocar jazz-fusion-metal dentro de um banheiro portátil, usando máscaras de palhaço assustadoras e samples de tuba. O resultado é ao mesmo tempo engraçado, virtuosístico e profundamente desconfortável. No rock, essa estética influenciou bandas de mathcore como The Callous Daoboys, que usam macacões listrados de palhaço em seus vídeos, e até certas fases do Mr. Bungle. A regra é simples: quanto mais nariz vermelho e caos rítmico, melhor.
Por outro lado, se a sua praia é o folk sujo e o rock acústico, o Goblincore vai te conquistar. Essa estética abraça o que é considerado “feio” na natureza: sapos, musgo, cogumelos, dentes perdidos, pedras, objetos enferrujados e aquele cheiro de terra molhada. É o oposto do cottagecore arrumadinho. Musicalmente, bandas como The Taxpayers e Bridge City Sinners já flertam com essa energia, com instrumentos acústicos sujos, letras sobre colecionar tampinhas de garrafa e a sensação de que o show está acontecendo dentro de um buraco de hobbit abandonado. O Goblincore surgiu no final dos anos 2010 como uma reação à estética excessivamente limpa e asséptica das redes sociais, encontrando no rock alternativo um lar perfeito para sua bagunça encantadora. Em outra ponta, o Fairycore é o oposto: magia, fadas, flores, rendas e tons pastel. Musicalmente, ele aparece em bandas de dream pop e folk psicodélico como Beach House e Mazzy Star, mas também em projetos mais roqueiros como os primeiros álbuns do Florence + The Machine. É o som de uma floresta encantada vista por trás de um véu de cetim.
Por fim, duas vertentes que merecem atenção pela sua complexidade. O Kidcore é uma explosão de nostalgia pelos anos 90 e início dos anos 2000: cores primárias vibrantes, listras, adesivos da Lisa Frank, joias de plástico e referências a desenhos animados. No rock, aparece em bandas como The Unicorns e em alguns momentos do Deerhoof, que misturam energia punk com uma estética infantil levada ao extremo. Já o Traumacore é a mais delicada e controversa. Surgido em comunidades online como uma forma de processar dores profundas (abuso, luto, depressão), ele utiliza imagens inocentes, bonecas, quartos cor-de-rosa, fitas cassete, para expressar angústia. Musicalmente, não é um gênero fechado, mas aparece em projetos de rock alternativo como dollphace (que mistura shoegaze com samples de desenhos antigos) e em certas faixas do Xiu Xiu, onde o contraste entre doçura e brutalidade atinge o ápice. O Traumacore representa no rock o mesmo incômodo que o slowcore ou o emo dos anos 90 representaram: a dor nua, sem a fantasia do herói rockstar. E, por último, o Cryptidcore celebra o mistério das criaturas enigmáticas — Pé Grande, Monstro do Lago Ness, Chupa-Cabra. Bandas de stoner rock e metal psicodélico como Clutch e The Sword frequentemente flertam com essa estética, usando letras sobre avistamentos e capas de disco que parecem frames de um falso documentário.
Todas essas vertentes mostram que o rock, está muito longe de morrer, continua progredindo, de certa forma, e sendo o território dos desajustados. Seja com um Game Boy na mão, uma máscara de palhaço ou um punhado de musgo, o normal é ser “estranho”. E você, conhece mais vertentes como essas?









