No dia 8 de junho de 2019, o heavy metal brasileiro perdia uma de suas vozes mais inconfundíveis. André Matos, cantor, pianista, compositor e regente, faleceu vítima de um infarto fulminante em sua casa, em São Paulo, aos 47 anos. Seis anos depois, nesta data que já entrou para o calendário oficial da cidade de São Paulo como o Dia Municipal do Heavy Metal, a memória do “maestro” é revisitada com a profundidade que sua trajetória merece.
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André Coelho Matos nasceu em 14 de setembro de 1971 na capital paulista. Aos sete anos, ganhou um piano de presente e nunca mais parou. Diferente da maioria dos roqueiros, ele seguiu pela via acadêmica: tornou-se bacharel em Regência Orquestral e Composição Musical, com habilitações em Canto Lírico e Piano Erudito. Essa base clássica seria a chave de tudo que faria depois. Enquanto seus colegas de escola eram apenas ouvintes e fãs de rock, Matos já decifrava partituras de Vivaldi e Paganini, mas também se encantava com Queen, Iron Maiden e Helloween. A fusão desses dois mundos, o rigor da música erudita e a energia crua do metal, seria sua marca registrada.
Sua carreira profissional começou ainda na adolescência. Com apenas 13 anos, Matos fundou o Viper ao lado de amigos do colégio. O disco Soldiers of Sunrise (1987) já mostrava um vocalista adolescente com técnica impressionante. Em Theatre of Fate (1989), a banda consolidou o que muitos consideram o primeiro álbum de power metal do Ocidente. A saída em 1990 abriu caminho para um projeto ainda maior.
Ao lado de Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Luis Mariutti e Ricardo Confessori, André criou o Angra. O debut Angels Cry (1993) foi uma grande mostra de seu talento: uniu velocidade, orquestrações e a voz lírica de Matos. O segundo álbum, Holy Land (1996), ousou ainda mais ao incorporar ritmos brasileiros, instrumentos como bandolim e temas inspirados na colonização do país. O Angra estourou no Japão, conquistando discos de ouro, e também na Europa, mas conflitos internos acabaram provocando sua saída nos anos 2000.
Em seguida, com dois ex-Angra, ele fundou o Shaman. O álbum Ritual (2002) repetiu a fórmula de sucesso. Depois, veio a carreira solo, com três discos: Time to Be Free (2007), Mentalize (2009) e The Turn of the Lights (2012). Paralelamente, Matos participou de projetos internacionais de peso, como a ópera-metal Avantasia, de Tobias Sammet, e o supergrupo Symfonia, com Timo Tolkki, ex-Stratovarius.
Sua formação em regência permitiu que ele escrevesse arranjos orquestrais originais para suas bandas, em vez de usar apenas teclados sintetizados. Além disso, foi um dos primeiros a trazer temas da cultura nacional, como a obra de Cândido Portinari e a história do Descobrimento, para o heavy metal, sem cair em estereótipos. O reconhecimento veio em várias frentes. Em 2012, a revista Rolling Stone Brasil o elegeu a 77ª maior voz da música brasileira, sendo o único cantor de heavy metal na lista. Ele foi cogitado para substituir Bruce Dickinson no Iron Maiden nos anos 1990. Em 2019, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a lei que institui o Dia Municipal do Heavy Metal em 8 de junho, data de sua morte. Em 2025, o tributo All Metal Stars reuniu seu irmão Daniel Matos e músicos que tocaram com André para celebrar sua obra em grandes palcos.
Sobre sua morte, infelizmente, na madrugada de 8 de junho de 2019, André Matos foi encontrado desacordado em sua casa, no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo. Uma funcionária da família o achou caído. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado, mas as tentativas de reanimação não tiveram sucesso. A causa oficial foi infarto agudo do miocárdio. Seu irmão, Daniel Matos, revelou à imprensa que André costumava compor durante a madrugada e tinha um ritmo de sono irregular. Seguindo seu desejo expresso em vida, não houve velório público. O corpo foi cremado em cerimônia reservada à família.
O legado de André Matos não se mede apenas por discos vendidos ou turnês. Ele provou que heavy metal e erudição podem caminhar juntos sem perder a força. Mostrou ao mundo que o Brasil não é apenas samba e futebol, mas também é capaz de produzir um músico do calibre de um Jon Lord ou de um Ronnie James Dio, com alma latina e técnica de conservatório. Para os fãs, cada audição de Carry On, Time to Be Free ou Nova Era é um reencontro com a genialidade silenciosa de um homem que preferiu os estúdios e a madrugada à fama fácil. E, seis anos depois, sua música continua sendo grandes referências em playlists, em tributos e na memória de quem sabe que o metal brasileiro nunca mais foi o mesmo sem ele.









