O metal sempre teve uma obsessão quase doentia pelo desconhecido. Durante décadas, isso apareceu em forma de demônios, guerras, ocultismo, serial killers, referências literárias e mundos pós-apocalípticos. Mas em algum momento, alguém resolveu olhar para cima e pensar: “por que não?”, e a partir daí nasceu o Aliencore.
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Curiosamente, Aliencore não é considerado oficialmente um gênero. O termo surgiu quase como uma piada interna entre músicos, fãs de deathcore técnico e comunidades da internet que começaram a perceber um padrão: bandas cada vez mais absurdas tecnicamente, com capas cheias de criaturas interplanetárias, letras sobre civilizações extraterrestres e guerras cósmicas. O próprio Lucas Mann, guitarrista do Rings of Saturn, afirmou em entrevistas que cunhou o termo para descrever o som da banda de forma jocosa, afinal, achava que nenhum humano conseguiria tocar aquelas músicas sem ser um alienígena.
No fim dos anos 2000, o deathcore começava a entrar numa fase curiosa. O estilo já tinha passado da explosão inicial de bandas copiando breakdowns infinitos e vocais cavernosos. Muitos músicos começaram a empurrar o gênero para territórios mais técnicos e menos “pé no chão”. O djent estava explodindo, o technical death metal voltava a ganhar força e a produção digital permitia criar texturas antes impossíveis dentro do metal extremo.
As guitarras ficaram mais precisas e mecânicas. A bateria passou a soar quase inumana. Os riffs começaram a parecer códigos matemáticos executados em velocidade absurda. E no meio disso tudo, algumas bandas perceberam que aquele som já não combinava mais com letras sobre sofrimento adolescente ou violência urbana. Aquilo parecia música feita para acompanhar o colapso de um planeta.
O marco zero conceitual do que viria a ser o Aliencore veio com o álbum Planetary Duality (2008) do The Faceless, que já trazia capa com criaturas interplanetárias, letras sobre guerras cósmicas e uma fusão de technical death metal com atmosfera futurista. No entanto, a banda que mais ajudou a transformar essa identidade em algo reconhecível foi a Rings of Saturn. Não só pela temática alienígena, mas porque o som deles parecia realmente deslocado da realidade humana: riffs tão rápidos e caóticos que muita gente começou a brincar dizendo que aquilo só podia ter sido composto por extraterrestres. A própria banda abraçou essa ideia e, aos poucos, o apelido “Aliencore” começou a ganhar espaço.
Mas limitar o Aliencore apenas ao Rings of Saturn, apesar de ele ter se iniciado ali, seria simplificar demais uma coisa que se espalhou como contaminação pela cena underground.
Bandas como Aversions Crown começaram a transformar invasões extraterrestres e destruição planetária em conceito central de seus discos. Shadow of Intent (formada em 2014) trouxe a temática de Halo e ficção científica para dentro do deathcore sinfônico. Enquanto isso, nomes como The Faceless ajudavam a construir a ponte entre technical death metal e ambiência futurista — algo essencial para a identidade sonora do Aliencore ganhar forma. Mais adiante, bandas como Babirusa levariam a estética sci-fi para um nível quase psicodélico, misturando brutalidade extrema com atmosferas espaciais sufocantes, já em uma fase posterior do movimento.
O mais interessante disso tudo é que o Aliencore não se apoia somente na temática espacial. O próprio som precisa transmitir estranheza. Existe uma sensação constante de desorientação nessas bandas. Os instrumentais fogem do padrão natural do metal tradicional — mas é importante notar que muitas dessas técnicas (trocas de tempo, assinaturas complexas, breakdowns atípicos) já existiam no technical death metal e no mathcore. O diferencial do Aliencore está na combinação: aplicar esses elementos a uma temática cósmica, somado à produção hiperquantizada e atmosferas sintetizadas. As músicas mudam de direção o tempo inteiro. As baterias entram em velocidades absurdas e, de repente, tudo desacelera para uma atmosfera fria e vazia, quase como se a música estivesse flutuando no espaço.
O djent teve influência gigantesca nisso. Principalmente bandas como Meshuggah, que praticamente ensinaram uma geração inteira a transformar guitarra em máquina industrial. Outro nome fundamental foi o After the Burial, com o álbum Rareform (2008), que ajudou a consolidar a ponte entre o djent rítmico e a agressividade do deathcore. Só que o Aliencore pegou essa base mecânica e adicionou paranoia cósmica por cima.
E isso explica por que o Aliencore divide opiniões. Para muita gente da velha guarda, aquilo ultrapassa o limite entre música extrema e exagero técnico. Existem críticas constantes sobre quantização excessiva, produção digital artificial e guitarras que parecem programadas por computador. Só que, ironicamente, essa artificialidade acabou virando parte da própria identidade estética do movimento.
Até visualmente existe um padrão. Capas com planetas destruídos, criaturas biomecânicas, naves gigantescas, símbolos futuristas e cenários que lembram filmes de horror espacial viraram quase uma assinatura informal do estilo. Existe uma influência muito forte de franquias como Alien, Event Horizon, Dead Space e até do horror cósmico de H.P. Lovecraft infiltrado nessas bandas.
Muitas dessas letras giram em torno da ideia de que a humanidade não é importante. Somos apenas um acidente biológico perdido num universo colossal e hostil. E quando esse conceito encontra músicas extremamente técnicas, caóticas e sufocantes, o resultado é quase cinematográfico.
Talvez por isso o Aliencore nunca tenha se tornado realmente mainstream dentro do metal extremo. Ele exige muito do ouvinte. Não é um som fácil de absorver. Muitas músicas parecem colapsar sobre si mesmas em complexidade. Mas exatamente por isso criou uma comunidade extremamente fiel ao redor do mundo.
Hoje o termo continua vivo, mesmo que ainda exista discussão sobre ele ser ou não um gênero real. Porque no fim das contas, Aliencore talvez seja menos sobre estrutura musical e mais sobre sensação. É o metal tentando traduzir o horror do desconhecido cósmico em forma de ruído.









